No Dia Internacional da Síndrome de Down, a busca por educação inclusiva se intensifica no Rio Grande do Norte. Famílias e especialistas ressaltam a importância de um ensino personalizado e da colaboração entre escolas e lares para garantir o desenvolvimento de crianças e jovens com a síndrome.
Dados recentes do Censo Escolar, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), revelam um aumento de quase 9% no número de estudantes com necessidades especiais atendidos na rede pública do estado, saltando de 7.911 em 2022 para 8.622 em 2023. Apesar desse avanço quantitativo, a garantia de uma educação de qualidade permanece um desafio para muitas famílias.
Cristiane Braz, mãe de Maria Luisa, uma jovem de 15 anos com Síndrome de Down, compartilha os obstáculos enfrentados na busca por uma inclusão escolar efetiva. Desde a recusa de algumas instituições até a ausência de suporte adequado em sala de aula, a jornada tem sido marcada pela persistência e pela defesa dos direitos de sua filha.
“Muitas escolas enxergam a inclusão apenas no papel. Em um dos momentos mais frustrantes, sugeriram que minha filha não precisava ser alfabetizada, como se sua presença ali fosse apenas algo simbólico, quase como uma colônia de férias”, desabafa Cristiane.
Atualmente, Maria Luísa frequenta uma escola particular, onde Cristiane observa um comprometimento genuíno com a adaptação das atividades e o estímulo ao aprendizado. Contudo, ela pondera sobre a desigualdade educacional, reconhecendo que sua condição financeira possibilitou essa escolha, enquanto muitas mães enfrentam um sistema público com carência de professores especializados e infraestrutura apropriada.
Cristiane enfatiza, ainda, o papel crucial dos terapeutas e educadores no progresso de Maria Luísa. “Tive a sorte de encontrar profissionais que não só ajudaram minha filha a evoluir, mas que também me deram suporte emocional e orientação. A inclusão vai além da sala de aula, é um processo que envolve toda a sociedade”, afirma.
Para Cristiane, a verdadeira inclusão ainda é um ideal a ser alcançado, tanto na rede pública quanto na particular. “Enquanto não houver investimento em formação de professores, acessibilidade e sensibilização dos alunos, estaremos longe de uma escola realmente inclusiva”, conclui. Em Macaíba, a prefeitura abriu 200 vagas de estágio em pedagogia para reforçar educação inclusiva.
Especialista defende a personalização do ensino
Clésia Melo, coordenadora do curso de Pedagogia da Estácio Natal, destaca o papel essencial dos profissionais da área na criação de metodologias que assegurem o aprendizado e a autonomia dos alunos com Síndrome de Down.
“A inclusão vai muito além da matrícula, é preciso garantir um ensino significativo, com estratégias adaptadas às necessidades de cada estudante”, enfatiza Clésia. Segundo ela, o acolhimento escolar e a formação contínua dos professores são fatores essenciais para o sucesso na jornada de aprendizagem.
Entre as principais estratégias pedagógicas para alunos com Síndrome de Down, Clésia destaca a personalização do ensino, o uso de materiais acessíveis e a aprendizagem baseada na interação.
“Crianças e jovens com o diagnóstico aprendem melhor em ambientes que estimulam a comunicação, a criatividade e a experimentação prática”, explica. Além disso, ela ressalta a importância da parceria entre escola e família. “Deve existir espaço para trocas e cooperação, onde todos atuem juntos para favorecer o desenvolvimento integral do aluno”.
Avanços legislativos garantem direitos
No âmbito legislativo, um marco importante foi a aprovação, em novembro de 2024, do Projeto de Lei 3007/23 pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. A proposta visa aprimorar as políticas públicas de inclusão e assegurar que as escolas estejam devidamente preparadas para atender às necessidades específicas dos estudantes com Síndrome de Down, alterando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência e regulamentando a educação especializada para pessoas com Síndrome de Down. A Câmara aprova projeto que regulamenta educação para pessoas com deficiência.
Apesar dos avanços, ainda existem desafios a serem superados. Para Clésia, a escassez de recursos e a necessidade de aprimoramento da capacitação docente são obstáculos que demandam atenção. É importante lembrar que Ivan Baron é nomeado embaixador da campanha nacional do MEC contra o capacitismo.
“A inclusão não pode ser apenas um conceito. Ela precisa ser uma prática real e contínua, transformando o dia a dia escolar e garantindo oportunidades efetivas para todos”, finaliza.
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